Hospital ou Circo de horrores?
Um caso verídico... como tantos outros!
Por problemas de mudanças na empresa estou sem convênio médico, e ontem infelizmente me senti muito mal, fortes dores de cabeça e tonturas. Sem opção tive que ir á um hospital publico, se é que aquilo pode ser chamado de hospital, no meio a dor e do nervoso comecei a chorar, e para me acalmar tirei papel e caneta da bolsa e comecei a escrever, e quando cheguei em casa na minha exaustidão eu continuei escrevendo pra ver se aquilo passava...
Hospital ou circo de horrores?
Minhas dores de cabeça ja são partes do meu dia-a-dia, á seis anos tenho convivido com essa dor, ela nunca passa e eu ja me acostumei. Mas tem dias que ela foge do padrão, e se torna insuportavel, hoje é desses dias, hoje é um dia que tenho vontade de simplesmente me desligar. Já não sei mais o que fazer, agora só me resta esperar.
Exatamente ás 17:35 eu entro no hospital, já ali na sala de espera o cenário me causa náuseas. Muitas pessoas aguardam sentadas, uma senhora se levanta e pede para ir ao banheiro, a recepcionista lhe entrega uma chave e ela abre uma porta que faz com que um mau cheiro se espalhe por todo o ambiente. Pessoas nos bancos com expressão de desespero, outras já parecem ter desistido, e outras não param de falar e reclamar. Um bêbado começa a falar, ele começa a dizer que ninguém esta doente de verdade, começa a chorar e pedir que Deus abençoe todos nós. O chão é imundo, as paredes tem cor de sujeira, as barras de ferros das rampas para deficientes estão enferrujadas, as cordas que determinam as filas estão remedadas com faixas e esparadrapos.
Consigo fazer minha ficha, e volto para aqueles bancos tortos da sala de espera. A tv esta ligada no Nat Geo, mais as pessoas parecem não notar. Crianças brincam naquele chão imundo, idosos parecem ter perdido a noção do tempo e do espaço, algumas pessoas simplesmente olham para o nada.
Depois de uns 30 minutos o guarda chama meu nome, me levanto acreditando que tudo vai ser resolvido rápido. Passo por uma porta e o guarda me diz: - “Sala 5, segunda a direita”. Caminho ainda tonta pelo corredor e vejo uma enorme fila na sala 5 na realidade duas fias, uma para retorno e outra para primeiro atendimento. Mais a sala é dividida em dois consultórios e apenas uma médica esta atendendo.
Nesse momento começa um circo de horrores. Algumas pessoas estão tomando soro, sentadas em imundos bancos de cimento. Um senhor de aproximadamente 70 anos, estava segurando o frasco vazio do soro, chorando porque já tinha acabado e ninguem vinha para tirar a agulha de seu braço, o sangue já estava em todo o cano do soro. Uma senhora também muito idosa estava sentada enquanto a neta aguardava na fila, mas me pareceu que ela não estava muito bem, pois toda hora ela levantava e ficava procurando pela neta, a neta já impaciente mandava ela sentar e depois de cinco minutos a cena se repetia. Um homem dormia em um dos bancos de cimento como se estivesse numa cama.
Surge no fim do corredor uma equipe de enfermeiros, todos desesperados, procurando por um paciente que havia desaperecido. A policia é acionada, e as filas se transformam em tumulto. Chega outro médico na sala cinco e a médica sai dizendo que já volta. O médico, dr. Hércules, parece não perceber o tumulto e conversa com os pacientes de maneira amigável. Eu estou de frente para a sala, e ele atende a todos com a porta aberta, falando alto, rindo, como se todos estivessem ali apenas para conversar com ele.
A fila nas outras salas também são imensas, na sala de medicamentos não tem ninguém atendendo, e a fila só faz aumentar. O desespero no olhar das mães que carregam seus filhos no colo dói lá no fundo da alma. Na parede ao lado da sala cinco tem uma placa com os seguintes dizeres “Aqui o atendimento é humanizado. Governo do Estado de São Paulo. Trabalhando por você”. Isso só aumenta minha revolta e minha vontade de sair correndo daquele horror.
Para completar um homem entra gritando pelo corredor, dizendo que foi comer um lanche e deixou o sobrinho na enfermaria e encontrou o rapaz tendo um ataque epilético na rua. Enfim acharam o paciente que havia fugido. O homem parece estar louco de ódio, começa um tumulto ainda maior no corredor, policiais, enfermeiros, todos tentando acalmar o homem, que só faz gritar. Eu fico pensando como num hospital um paciente com roupas de internação, consegue sair sem ser notado. Esse é o atendimento humanizado. Com desespero começo a chorar e chorar, não pela minha dor, mais pela dor coletiva que sinto nesse lugar.
Às 18:30 consigo entrar na tal sala cinco. Nesse momento minha dor ja domina completamente, mal consigo abrir os olhos. O médico me olha e pergunta o que eu tenho, me seguro na mesa para não cair e respondo com a voz fraca:
- Eu estou com muita dor de cabeça. Mas antes de me medicar deixa eu te explicar uma coisa. Eu ja fiz tratamento, ja fiz todos os exames possiveis e não consta nada, já fiquei internada no começo do ano, mas nenhum médico nunca me deu um diagnóstico. Estou com essa dor forte desde sabado, e venho tomando dipirona, como não resolveu eu vim aqui.
Ele me fez umas perguntas comuns como: “Tem algum diabético na familia” “Você é alérgica a algum medicamento” blá blá blá; Depois me entregou dois papéis, um para eu tirar Raio- X e outro para medicação. Me dirigi até a fila da medicação e vi pessoas em estados deploráveis. Foi quando chegou um grupo de estagiarios de enfermagem que demoravam cerca de 30 minutos com cada paciente. Olhei a fila do Raio-X e o operador tinha dado uma pausa. Comecei a ler os papéis e o médico tinha me receitado dipirona. Ai minha fúria aumentou. Será que tudo o que eu disse foi em vão? Eu disse que tinha tomado dipirona e ele me receita dipirona!
Com muita raiva enfiei os papéis na bolsa e passei pela porta, o guarda tentou me barrar pedindo minha ficha de liberação, ai eu pensei “O cara conseguiu passar com roupa de internação” olhei pra trás e os policiais ainda estavam lá, ainda dava pra ouvir a voz do homem que gritava na sala da enfermaria, enquanto o doente gemia numa maca no corredor. Eu disse ao guarda que a moça estava guardano a fila por mim, que eu só ia no banheiro e ele me deixou passar. Só a idéia de entrar naquele banheio fez minhas pernas tremerem. Corri pro estacionamento e fui voando pra casa.
Enfim o que eu consegui no hospital foi, assistir ao circo dos horrores, falar com um médico que não me ouviu, e fugir com a dor ainda maior. Pra mim foi uma experiência horrível, mas não é isso que me chama atenção. O que mais me impressiona é a falta de humanidade, dos médicos, dos funcionários, do governo e até mesmo dos pacientes.
Todo mundo sente a maior dor do mundo, por todos os lados eu vi pessoas em situações bem piores do que a minha, vi idosos send tratados com descaso, crianças que já nem tinham forças para chorar, adultos chorando como crianças. E o incrível é que ninguém faz nada, depois de atendido todos se vão para suas casas e esquecem tudo o que vivenciaram, toda a falta de humanidade com que foram tratados.
Eu não consigo esquecer, eu me revolto. E ainda vemos nas campanhas eleitorais canditatos afirmarem que melhoraram a saúde pública.
Se isso que eu vi e vivi é a melhora eu mal posso imaginar como era antes! ¬¬
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às 4:09:36 PM